Ela: que reclama, eu não escrevo para ela, bela, que me faz ver o mundo inteiro com outros olhos, cela, minha prisão, meu sangue, meu ventre, minha paixão, olha, não te escrevo para te satisfazer encantos, valha, eu te dedico, te despejo, te acendo, te inflamo, te quero, querela, sou teu amante, teu escravo, teu servo e teu senhor, donzela, faça comigo o que quiser, te der na telha, velha, sou a poesia que me falta, a beleza que me escapa, o rio que seca, ilha, sou todo teu, nada, nada vem me alcança, barca, me abarca, embarca, me afoga, molha, meu coração, minha vida, minha ilusão, fantasia, tela, sou romance, sou filme água-com-açúcar, sou mel, sou bala perdida que atravessa como rela flecha de cupido, gela, minha alma, meu último fio de cabelo, meu universo sóbrio desmantela, sou pernas bambas, ar sem fôlego, sílabas frouxas, tolo, sou gago, sem ritmo, sem pontos, sem vírgulas, zelo, e você que me completa, me preenche, me dá razão de ser, abelha, ainda acha que não vivo por ti, não te tenho chama, não me aqueço em teus braços, em tuas coxas, em teu seio, vela, me dê calor, me dê ardor, me dê prazer, me dê luz, estrela, não me apoquente com cobrança, essa ânsia, esse ciúme barato, apela, eu só te vejo, só te escrevo, só te desenho, te imagino, tino, estou perdendo o medo de viver, a vontade de morrer jovem, o tesão de ser único, só, indivisível, paralela, minha vontade é ter-te em mim como tu me tens, cadela, e tu crias moda, vive a me xingar, desfila impropérios, passarela, não te cozinho em banho-maria, te amo, te asseio, te grelo, te grelho, panela, a sua tez, teflon, tesão, morena, jambo, linda, toda, minha, amarela, minha mulher, minha querida, minha vida, minha anja, auréola. E ela…
haikais e microcontos
-
-
- O que você faz para conter o aquecimento global?
- Não esquento a cabeça com o futuro!
-
Queijo na boca não. É carta fora do caralho.
-
Fiz tudo o que estava ao meu alcance, agora está em minhas mãos.
-
por que nós estranhamos o costume do véu islâmico e não achamos estranho o hábito das freiras devotas?
-
Dizia o coronel na preleção aos cabos que tomariam conta dos currais:
- Voto cívico é o putnam que pariu!
-
Descolou a retina lendo. Costumava pegar o bonde andando.
-
Quando o estresse sobe até a cabeça, minha pressão cai.
-
um alto-falante do céu diz:
“vai descendo até o chão”
- o chão é o limite?
-
uma nuvenzinha negra sobre minha cabeça
medo de sair na rua como de uma onça-pintada
axônios tecem suas sinapses furiosamente fossem vagalumes avançando pelo obturador
lágrimas, lágrimas e canivetes
hoje deus está com gases
-
Como é que as pessoas conseguem viver em tão pouco tempo?
Eu não caibo em tão pouco tempo
Respirar leva tempo
Refletir leva tempo
O que é que estou fazendo nesse momento?
A vida é feita de perdas de tempo
A morte é feita de perdas de tempo
Somos sopro ou somos vento?
Eu não caibo em tão pouco tempo
Como é que as pessoas conseguem viver em tão pouco tempo?
Eu não caibo em tão pouco tempo
O relógio prevê o fim do tempo
Falsos profetas prevêem o fim do tempo
Gastança ou racionamento?
Diz-se de alguém que está à frente do tempo
Seu tempo acabou.
-
[♪♫♪♫]
Há uma nuvem de tags fronte aos meus olhos
Dizendo pra mim que você tem um blog
E que não demora muito a post-a-a-ar
-
Manifesta
a
ação
Heterossexuais
No ato sexual
São todos uns assexuados
-
Ela faz a curva
Ele desenvolve
Ela acende o farol de milha
Ele acelera
Ela puxa o freio de mão
E ele sai cantando pneu
-
a poesia bem feita é um traço
um verso, uma estrofe, uma resma, um maço
a poesia bem feita é um traço
a língua beija o verso e um abraço
a poesia bem feita é um traço
se quiser-na bem feita eu mesmo faço
a poesia bem feita é um traço
se monótona é erro crasso
a poesia bem feita é um traço
rimas e trovas, poeta no laço
a poesia bem feita é um traço
não traz felicidade, mas o que vier eu traço
a poesia bem feita é um traço
uma estrofe bem feita é um paço
a poesia bem feita é um traço
uma risca, um risco, um baço
a poesia perfeita é — um traço
-
Omnibus
Dias de greve de ônibus são o paraíso
Manhãs populosas sem pressa
Sem desencanto sem compromisso
Mais gente mais calor humano mais ar
É pena que nesses dias
Não haja ônibus a circular
-
A mim não me agrada redigir em outra língua
Estou suposto a escrever em português
Me dá só lápis, um cadim de papel que não faço míngua
-
Uma vida perdida
Do que me servem meus livros
Nada
Se não os guardo à memória
Nada
Se não os absorvo
Nada
Do que me servem meus versos
Nada
Se não os leio em voz alta
Nada
Se não os há quem recite
Nada
Do que me serve meu pranto
Nada
Se não há quem o ouça
Nada
Se não se apagam as mágoas
Nada
Do que me sirvo aos meus filhos
Nada
Se não os ponho orgulhosos
Nada
Se não os ensino a nadar
Nada
-
-
Se alguém me bate, rebato
Se me ama, apaixono
S’álguém me mata, morro
Corolário ecológico:
S’alguém me mata, morro
Se desmata, murro
-
no calor e na discórdia
há dias em que as pessoas parecem
feitas de gelo
pedras a derreter
corolário museológico
era um museu de cera
por causa do aquecimento global, virou um mar de lama
-
Chama
Namorados
No amor a dois
Não se chamam
Não se amam
Se inflamam
-
Diário de uma diarréia
Como água para chocolate
Como arroz
Como grão-de-bico
Como almôndegaHoje coelho
Amanhã Carneiro
Depois churrasquinho de gato
BoiDe grão em grão
A galinhaPorque no caso dela
O buraco donde se caga
É o mesmo donde se nasceE se o poema não paga a piada
É porque está uma bosta
Literalmente
-
poesia hoje
é um bando de haicai
sem quê nem pra quê
-
toda poesia começa com(o) um dístico
algumas acabam, outras
nem tanto
antes
